quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Sonho.

Era mais um dia normal na minha vida. Depois de uma conversa estranha com o pessoal do acampamento sobre feriados e festas locais assustadores, como sempre, meus amigos estavam parados na calçada, ponderando sobre quando ir à praia e como organizar a saída. É estranho um monte de caras organizar uma saída à praia? Muito. Mas, de novo, eu faço parte de um grupo estranho de pessoas... afinal, como seria possível iniciar uma conversa sobre feriados assustadores da sua cidade se o grupo de pessoas em si não fosse deveras estranho? O que aconteceu depois não traiu as expectativas.
Nosso acampamento anual acontecia na praia, dessa vez, em uma cidade que, incrivelmente, era grande e não ficava lotada de turistas. Da para entender completamente porque viemos para cá: dependendo de quão longe você for, o cenário pode mudar de crianças correndo atrás de uma bola para adolescentes bem vestidos entrando e saindo de lojas caras com muitas sacolas de compras. Mas também poderia andar alguns metros e ficar sozinho.
Quando se acostuma a ter gente por perto que... bom, não gosta de ficar perto, você acaba preferindo ficar sozinho também. E meus amigos gostavam de estar juntos, mas separados do resto do mundo.
Depois que minha opinião sobre quando ir à praia foi totalmente ignorada, mais uma vez (quem ouve o mais novo?), encontrei uma pessoa que adora brigar comigo e fui até ela. Se ele viu a minha aproximação? Sim. E começou a brigar? Também. Acho que ele não queria que eu fosse até lá; poderia ter um motivo, ou não. Mas eu costumo ignorar quando ele fala bragando comigo... deve ser por isso que ele briga. É muita insistência, cara. Percebe logo que eu não me importo!
- Volta pra lá! - eu consegui chegar perto o suficiente para entender qual era a reclamação dessa vez.
- Eu só quero ficar aqui observando. E fazendo companhia. - abri um sorriso confiante que implorava por uma afirmação. E não, ele ter me mandando embora não me magoou. Ele realmente fala as coisas para o meu bem e, as vezes, manda qualquer um embora quando está fazendo algo que ele considere importante por acreditar que as chances de dar tudo certo são maiores se ninguém estiver vendo. Crença popular, ao meu ver.
- Até parece. Vai embora, você vai me atrapalhar. - disse com cara de quem sabe mais. Ele estava com uma espécie de encerador na mão e corria um líquido pegajoso pelo chão. Estávamos parados na parte coberta de uma longa pista de pedra sabão azul, metade seca, metade coberta por uma gosma. O telhado era sustentado por pilastras grossas cobertas com a mesma pedra do chão, mais ou menos no meio da pista havia um lance de escadas que levava à um pequeno centro de compras que, naquele dia, estava lotado.
Enquanto eu pensava em qualquer resposta para o meu amigo com o esfregão, mais do mesmo líquido gosmento do chão começou a pingar do telhado, como se estivesse chovendo, e pessoas vestidas de preto começaram a surgir por todos os lados, espalhando a gosma pelo chão.
Observei perplexo enquanto mais sabão (parecia sabão, com textura e cheiro de sabão, tenho quase certeza de que era sabão) líquido era bombeado para a pista até que fui cercado por um menino um pouco mais alto que eu, vestindo sobretudo, tapa-olho e chapéu de capitão de pirata, e uma menina loira, com as mesmas roupas mas o cabelo preso ao invés do chapéu estilo Jack Sparrow depois da mamãe usar alvejante para lavar suas roupas.
Ambos tinham bolas (pareciam ser de vôlei) nas mãos, sorrisos diabólicos nos rostos e luvas de um material transparente cheias de mais sabão. Antes que pudesse entender o que estava acontecendo, fui acertado com a bola pelo menino pirata e coberto de sabão. Porque eu escorreguei com o susto de levar uma bolada do nada e cai no rio de sabão líquido transparente em que me encontrava.
Meu amigo riu e me mandou embora sem precisar dizer "você deveria ter ido embora quando eu disse", a expressão dele dizia isso e muito mais. Levantei e fui andando até a escada vagarosamente antes que ele realmente pudesse completar o "eu te avisei" com um "eu sabia que isso aconteceria".
Ao caminhar entre as pessoas, percebi que aquilo era um campeonato. Pode ter contribuído com a chegada à essa conclusão também o fato de a pessoa que me derrubou ter dito algo como:
- O fanfes tá logo aí! É só esperar o dia 15! - com um sorriso feliz enquanto eu me afastava.
Inconscientemente, fui até às escadas andando pelos cantos, tentando não ser percebido. Notei mais duas coisas: 1) as pessoas, no geral, dividiam-se em dois grandes grupos com pequenas facções; o grupo seco e o gosmento. É. Mais pessoas tinham uma parte da roupa (que deveria identificar as facções, já que pequenos grupos de pessoas vestiam-se de forma semelhante, buscando diferenciar-se de outros grupos) que era completamente cheia de sabão ou alguma coisa parecida, enquanto outros tinham a roupa completamente seca, impermeável, em algumas situações. 2) o jogo parecia consistir em um dos lados derrubar o outro. Tipo, seco vs molhado.

Acabou que, ao sair da arena (faz sentido ser), encharcado, apareci no meio do centro de compras e... foi pior do que lá em baixo. Todas as pessoas na eua estavam olhando para mim, sem esconder a surpresa. E o pior é que haviam mais pessoas tão molhadas quanto eu ali em cima e mesmo assim ninguém olhava para elas... era como se elas fosse invisíveis. Não. Mais como se estivessem misturadas ao cenário. Encostadas à um vidro preto ou atrás de uma arara de vestidos azul marinho com asas negras (sim, era uma arara real em uma das lojas).
Como eu tinha dignidade (e não me importava mesmo com os olhares, já que ia embora dali alguns dias), fui andando tranquilamente, com o cabelo colado ao rosto, as botas fazendo barulho e as roupas pingando. Foi a primeira vez que me senti tão importante, com as pessoas abrindo caminho para mim.
Só mais tarde, depois de tomar banho, percebi que estava de coturno, calça jeans e jaqueta da mesma cor. Para quem estava jogando, eu realmente parecia fazer parte da brincadeira.

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