quarta-feira, 27 de julho de 2016

Z

Eu tô bem revoltada.
Minha família é uma merda. Ponto final.
Meu pai é preconceituoso, infantil, arrogante. Acusa as pessoas antes de pensar se ele está certo ou errado. Aliás, pensa que está certo sempre, só ele sabe das coisas, todas as outras pessoas são burras. Sim, ele acha que eu sou infantil, boba, descompromissada. Quando eu faço alguma coisa inteligente, ele fica surpreso. De verdade. Daquelas de ficar de olhos arregalados e tudo. Não tô exagerando.
Minha mãe é muito mais preconceituosa que meu pai. Ela tem aqueles pensamentos de senhora rica de novela das seis da globo: meu filho só pode se relacionar com pessoas da mesma condição financeira dele; por exemplo. É super-protetora, tem seu favorito sim, faz as coisas pra deixar um feliz e os outros conformados. Nem um pouco justa.
Aliás, ninguém nessa casa é justo.
Ela sabe que eu sou a única pessoa que raciocina acima do egoísmo e entende a situação, usa isso pra se aproveitar. Usa mesmo.

A minha preguiça existe e graças a Deus que ela existe. Me salva de MUITA merda.

Minha irmã é o cúmulo do egoísmo. Tudo é dela. Não mecha, não empresto, nem olha que não é seu. Nesse nível. Esse lado do quarto é meu, não anda pra cá.
Sabe o que eu tenho? O que eu comprei. O resto é todo dela. Mesmo que minha mãe diga "é da casa", não é, é da minha irmã.
Quer ver uma coisa que parece mimimi? "Qualquer coisa que minha irmã quer, minha mãe compra. Mesmo que não tenha dinheiro. Mesmo que seja caro. E ela não espera. Ela quer hoje, ela tem hoje. Celular novo? 'Mãe, quebrei meu celular que você nem terminou de pagar ainda jogando no chão da escola porque tava puta com o inspetor de corredor, me dá esse aqui que é bem mais caro que o de antes?' 'Não tenho dinheiro.' 'Tem sim! Compra!' Ela comprou. 'Mãe, você nem terminou de pagar esse celular caro que você me deu há uns seis meses e era o que eu queria pra minha vida mas... não é mais, agora quero um iPhone de 4 mil reais, me dá?'... 'Mãe, eu quero uma chapinha, me dá?' 'Mãe, eu quero um violão. Não sei tocar e nem vou me esforçar em aprender. Ou melhor, nem vou procurar uma forma de aprender. Me dá um violão mesmo assim?' 'Pai, me dá uma bicicleta que eu não vou usar porque só sei sair por aí com minhas amigas e as saias que eu uso são curtas demais pra poder andar de bicicleta... Ela vai ficar dentro de casa mesmo, me dá?' 'Vou estudar nessa escola aqui, tá? Paga minha inscrição, a farda de mais de duzentos reais, um computador porque o curso é de informática e um notebook porque precisa levar pra escola. Me leva pra escola durante um ano. Vou reprovar porque não tenho o mínimo de foco na minha vida, só quero saber de brincar e faço as coisas de qualquer jeito.' 'Eu odeio todo mundo que faz tudo pra mim nessa casa, vou embora!'
Meus pais pagaram uma festa de aniversário de mais de mil reais pra ela em cima da hora, sem ter dinheiro pra isso. Ela disse que não queria nenhum parente na festa. Fez grosseria com eles no dia da festa. Resolveu que morar nessa casa não era muito bom pra ela no dia seguinte. Dobrou todas as roupas caríssimas que minha mãe compra pra ela, colocou numa mochila e foi embora de casa.
Eu passei quase duas semanas escutando meus pais conversarem só sobre ela com todo mundo com que eles se encontravam na viagem que ela deveria ter ido mas decidiu que era boa demais para.
Mesmo comigo a conversa era sobre ela. Tudo pra agradar ela. Tudo para fazer com que ela voltasse pra casa."

Aí fica até parecendo que eu só odeio ela.
Mas eu faço parte. Eu sou idiota como meus pais. Eu faço o que ela quer. Eu pago as coisas pra ela. Eu ajudo com tudo que ela pede. Eu faço as coisas que ela quer.
Ela se nega a pegar um copo de água pra mim. Eu já levei comida na cama pra ela.
Ela entrava no quarto acendendo a luz na minha cara e gritando no meu ouvido quando chegava de manhã das baladas dela. Eu sempre desligo meu despertador antes de incomodar ela, me visto no escuro ou fora do quarto antes de ir pra aula.

"Você não tá vendo o lado dela..." Ela vê meu lado? Ela tem essa obrigação? Não? Então eu também não preciso ter.
"Você é compreensiva. Vai se sair melhor na vida do que ela. Você se esforça pra fazer as coisas por si mesma. Ajuda ao invés de empacar. É uma pessoa melhor." Engraçado que ela não vai pra escola e não reprova, recebe todo mês mesmo sem ir trabalhar durante a metade de cada um deles, ganha todos os presentes que pede.

Meu pai tá me devendo o presente do meu aniversário de 16 anos.
Todas as festas de aniversário que eu quis fazer, passei meses planejando, foram impedidas porque não tinha dinheiro.
Eles tiram dinheiro da bunda pra dar as coisas pra ela.
E isso não é uma coisa de hoje, tá? Eu com 21 anos sinceramente não poderia me importar menos com a facilidade que meus pais tem em jogar dinheiro na fogueira Erica. O que me deixa mal de verdade é olhar pra trás e ver que a situação não mudou nem um pouco desde que eu era "criança" e nem por isso eu recebia um tratamento próximo do que ela recebe até hoje.
Eu precisei de verdade ameaçar meus pais pra poder viajar. Ela ligou avisando que ia, pediu dinheiro e foi.
Eu comprei minha passagem, com o meu dinheiro. Paguei todas as minhas despesas de viagem. E eles só me levaram até o aeroporto porque eu tinha dito que iria de taxi se fosse necessário.
Eles deram dinheiro pra ela viajar de carro com mais sete pessoas, no mesmo carro, passar um final de semana em festa, na semana seguinte em que ela recebeu o pagamento e gastou tudo em uma noite, enquanto ligava reclamando de dor na garganta.
Ela estourou o limite do cartão da minha mãe, disse que não foi ela, e minha mãe fez o quê? Nada.

Eu tô cansada de verdade da diferenciação de tratamento.
Minha mãe reclama quando eu digo "a facilidade que você tem em dizer sim pra ela é a mesma que você tem pra me dizer não". Ela acha ruim.
Eles decidiram que a tia do meu pai moraria aqui. Decidiram que era o momento de dividir os quartos. Decidiram que a linda teria o quarto maravilhoso enquanto eu continuaria dividindo quarto com outra pessoa.
...o resto desse monólogo tá no twitter.


Simplesmente já não consigo mais conviver com essas pessoas.
Juro que se não fossem meus parentes, jamais viveria com eles. Jamais daria confiança pra eles. Não fariam parte do meu círculo de amizades. Sequer conversaria com eles.
Me revolta de verdade a forma deles de ver o mundo. As atitudes deles para com as pessoas com quem convivem. O tratamento que dão para as pessoas que dizem amar.



Eu sinto como se tivesse jogado minhas férias fora.
Me explica pra que eu viajei com meu pai e minha mãe pra escutar os dois preocupados com a minha irmã ou brigando entre si ou falando mal de mim? Pra que eu perdi duas semanas de isolamento indo pra um lugar que eu nem gosto? Pra passar alguns momentos no único lugar que eu tinha vontade de ir em todo o roteiro da viagem e ainda ter minha felicidade cortada pelas babaquices de pessoas egoístas? O que eu ganhei com isso? A consciência limpa de não tem feito meus pais pagarem minha hospedagem pra eu ficar em casa? Grande prêmio. Uma sala quente, sem privacidade, sem porta, com mosquitos, pra dormir e dividir com minha tia-avó idosa? Me deixa muito feliz. Um gaveteiro velho e cheio de ferramentas que ficaram por tanto tempo ali que passaram seu cheiro de graxa e óleo de motor pro móvel para guardar minhas roupas? Que alegria.
Acho que se eu tivesse ficado em casa, chorando por não ter feito o que eu queria e poderia ter feito não fosse meu pai mentir pra mim e eu acreditar, de novo. Do que ter passado por essas duas semanas do modo como foram.
Vou dizer que no momento em que eu me vi no meio da estrada, um pouco antes do meio dia do primeiro dia da viagem, meu pensamento foi: eu quero voltar pra casa. Não quero ir.

Tô bem desesperada porque minhas férias terminam daqui três dias e eu não fiz nada que queria. NADA.
Só arrependimento. Só desilusão. Só raiva. Só desapontamento.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Eu preciso de ajuda.
São mais de três da madrugada (quatro, pra maior parte dos meus amigos) e eu não sei o que fazer.
Sabe aquele negócio de eu ser forte e resistente e conseguir lidar bem com os problemas...? Nunca foi verdade.
Eu simplesmente sempre ignorei tudo de ruim que acontecia e... passei por cima. Eu nunca enfrentei meus problemas de frente. Eu nunca fui forte pra lidar com eles.

No último dia do ano eu praticamente joguei fora uma pessoa que me amava de graça porque eu tenho medo. Hoje eu vi como isso repercutiu na vida dele e eu não me sinto no direito de sofrer por isso, porque é minha culpa. Minha culpa. Minha culpa. Minha culpa. Minha culpa. Minha culpa. Minha culpa.
Mas nada vai mudar se eu assumir isso. Nada vai mudar porque eu sou fraca. Porque eu não consigo. Porque eu simplesmente... desisto.
Eu sou vazia.

--- Ele me fez acreditar que eu tinha medo de tudo. Que eu não fazia as coisas por medo. Isso é ruim? O meu medo me salvou de várias coisas. Muitas vezes! Eu preciso do meu medo. Eu gosto do meu medo. E não foi ele que me fez desistir de você. Eu não queria me sentir mal por rejeitar alguém, principalmente alguém que me queria tão bem. Mas eu não me sinto mal sobre isso. Não mais. A culpa não é só minha. Não aconteceu tudo isso simplesmente porque eu sou covarde. Agradeço minha covardia. Não vou deixar ninguém usar ela contra mim de novo. Nunca mais. ---

Eu não tenho nada com que eu me importe de verdade. Eu não tenho ninguém que eu ame suficiente pra viver por. Eu não tenho nada. Eu sou vazia.
A única coisa que um dia me fez sentir... empolgação foi querer ser escritora e eu também não vejo um futuro pra isso.
Eu não vejo minha vida seguindo em frente. Eu não vejo as coisas dando certo. Eu não vejo meu futuro. Eu não me vejo terminando a faculdade. Não me vejo escrevendo TCC, embora eu diga pra todos sobre o que ele é. Eu não me vejo nada. Eu não vejo meu futuro.
Eu sou vazia.

E ninguém me conhece.
Mesmo eu vivendo cada dia da minha vida tentando fazer com que cada pessoa, tanto as que gostam de mim quanto as que pouco se importam com a minha existência, me conheça.
E ninguém me entende.
Mesmo que eu tenha vivido durante vinte e um anos com essas mesmas pessoas, cada dia da minha vida, eles não entendem porque eu simplesmente desisto das coisas.
Salvo algumas pessoas que, milagrosamente, entendem e conhecem algumas coisas sobre mim mesma que nem eu domino.
Pessoas essas que eu não tenho coragem de acordar pra me escutarem chorar porque... quem sou eu? O que eu valho? Se eu sou vazia. Se eu não consigo me fazer feliz. Se eu não consigo me dedicar a nada. Se...

Eu deveria querer alguma coisa.
Eu deveria querer ser alguém.
Eu não deveria ser vazia.
Eu não deveria simplesmente aceitar isso.
Eu não deveria desistir de mim mesma.

Mas eu já desisti.






Eu não desisti porque deu tudo errado.
Eu não desisti porque ninguém gosta de mim.
Eu não desisti porque é difícil demais.
Eu desisti porque eu não valho o esforço.
Eu não acho que valho. Eu não acho que valha pra alguém. Eu não posso oferecer nada a ninguém. Porque eu sou nada.
"Você é o acúmulo das suas experiências."
Vou fazer psicologia e virar conselheira infantil.

Uma vez.
Uns amigos da família estavam brigando. Por motivos de falta de conversa. Porque nenhum dos dois parava pra entender completamente o lado do outro.
Eu vi aquilo.
E eu expliquei pra eles.
Meu pai ficou adimirado com a minha capacidade de entender um sofrimento de duas pessoas completamente alheias a mim e que, até certo ponto, vivem suas vidas separadamente e longe de mim. Ele ficou surpreso com minha capacidade de entender o sentimento deles.
O sentimento.
Depois ele ficou orgulhoso com minha capacidade de observação.
"De onde você tira esse entendimento?"
De tudo que eu já sofri. Dos canalhas que eu enfrentei. Das suas brigas. Da minha vida.

Minha vida. Que eu sempre tive todo o trabalho de esconder. Porque eu fui ensinada a não ser fraca.
Mas eu nunca fui forte.
Mas eu nunca falei que era fraca.
Eu engoli o nó da garganta. Respirei fundo. Chorei no banho. Sofri de cara no travesseiro. Sempre pensei sozinha. Nunca compartilhei com ninguém. Me fechei. Não senti mais nada. Morri.
Eu morri.
Eu cheguei a não sentir mais nada.
Eu reprimi todos os meus sentimentos e lembranças.
Todos.
Os ruins. Os tristes.
Os bons. Os felizes.
Minha sala de controle ficou vazia. Minhas ilhas apagaram e desmoronaram.

Eu nunca fui forte.
Eu sempre fiquei calada.
Eu sou vazia.
Eu desisto.






Hoje a minha mãe ficou bêbada. De novo.
As pessoas que disseram "conte comigo sempre" da outra vez que ela quase bateu o carro três vezes comigo e minha irmã dentro depois de passar a tarde bebendo. Revoltada. Disseram daquela vez "todo mundo bebe".
Eu perdi a confiança na pessoa naquele momento? Sim.
Hoje a minha mãe fez meu pai ficar daquele jeito.
Ela vive com ele há mais tempo que eu. Ela conhece ele. Ela sabe.
Ela irritou ele. Ele perdeu completamente a paciência.
Eles bateram na Erica.
Não foi uma chinelada ou uma sintada. Um esporro, uns tapas.
Eles jogaram coisas nela. Emprensaram ela na parede. Enforcaram ela.
Ela saiu daqui arranhada e cortada. Toda vermelha.
Não importa quem está certo.
Não importa.

Eu não quero.
Não quero viver assim.
Não quero ver isso.
Não quero. Não quero. Não quero. Não quero. Não quero. Não quero. Não quero. Não quero. Não quero. Não quero. Não quero. Não quero. Não quero.

Eu não quero ver meu pai mandando minha irmã mais nova embora de casa.
Não quero ouvir minha irmã dizer que nunca mais vai olhar na cara deles.
Não quero ver ela chorar daquele jeito. Toda machucada. Como se fosse cachorro.
Não quero ver meus pais fazendo as mesmas coisas que meus tios fizeram com meus primos.
Hoje, uma sobrevive com a avô que só não odeia abertamente ela, outro está fora da escola há anos e é usuário de drogas e a mais nova só Deus sabe o que faz. Eles foram todos abandonados. Jogados pra fora de casa. E hoje eu vi meu pai fazer a mesma coisa com a minha irmã.

No final, não importa tudo que ela já fez pra mim.
É uma criança. Que não tem nada. Não tem pra onde ir. De dezessete anos.







Hoje eu chorei por quem eu sou.
Eu chorei pela minha irmã.
Eu chorei pela desilusão da minha mãe.
Eu chorei por desgosto do meu pai.
Eu chorei.

Eu tenho chorado muito. Eu chorei com a Adriana. Eu chorei com o Hugo. Eu chorei hoje como eu nunca chorei na minha vida.
Eu não gosto de ser quem eu sou.
Eu preciso de ajuda.
Eu não quero viver assim.
Eu não quero ser assim.
Eu não quero isso.