São mais de três da madrugada (quatro, pra maior parte dos meus amigos) e eu não sei o que fazer.
Sabe aquele negócio de eu ser forte e resistente e conseguir lidar bem com os problemas...? Nunca foi verdade.
Eu simplesmente sempre ignorei tudo de ruim que acontecia e... passei por cima. Eu nunca enfrentei meus problemas de frente. Eu nunca fui forte pra lidar com eles.
No último dia do ano eu praticamente joguei fora uma pessoa que me amava de graça porque eu tenho medo. Hoje eu vi como isso repercutiu na vida dele e eu não me sinto no direito de sofrer por isso, porque é minha culpa. Minha culpa. Minha culpa. Minha culpa. Minha culpa. Minha culpa. Minha culpa.
Mas nada vai mudar se eu assumir isso. Nada vai mudar porque eu sou fraca. Porque eu não consigo. Porque eu simplesmente... desisto.
Eu sou vazia.
--- Ele me fez acreditar que eu tinha medo de tudo. Que eu não fazia as coisas por medo. Isso é ruim? O meu medo me salvou de várias coisas. Muitas vezes! Eu preciso do meu medo. Eu gosto do meu medo. E não foi ele que me fez desistir de você. Eu não queria me sentir mal por rejeitar alguém, principalmente alguém que me queria tão bem. Mas eu não me sinto mal sobre isso. Não mais. A culpa não é só minha. Não aconteceu tudo isso simplesmente porque eu sou covarde. Agradeço minha covardia. Não vou deixar ninguém usar ela contra mim de novo. Nunca mais. ---
Eu não tenho nada com que eu me importe de verdade. Eu não tenho ninguém que eu ame suficiente pra viver por. Eu não tenho nada. Eu sou vazia.
A única coisa que um dia me fez sentir... empolgação foi querer ser escritora e eu também não vejo um futuro pra isso.
Eu não vejo minha vida seguindo em frente. Eu não vejo as coisas dando certo. Eu não vejo meu futuro. Eu não me vejo terminando a faculdade. Não me vejo escrevendo TCC, embora eu diga pra todos sobre o que ele é. Eu não me vejo nada. Eu não vejo meu futuro.
Eu sou vazia.
E ninguém me conhece.
Mesmo eu vivendo cada dia da minha vida tentando fazer com que cada pessoa, tanto as que gostam de mim quanto as que pouco se importam com a minha existência, me conheça.
E ninguém me entende.
Mesmo que eu tenha vivido durante vinte e um anos com essas mesmas pessoas, cada dia da minha vida, eles não entendem porque eu simplesmente desisto das coisas.
Salvo algumas pessoas que, milagrosamente, entendem e conhecem algumas coisas sobre mim mesma que nem eu domino.
Pessoas essas que eu não tenho coragem de acordar pra me escutarem chorar porque... quem sou eu? O que eu valho? Se eu sou vazia. Se eu não consigo me fazer feliz. Se eu não consigo me dedicar a nada. Se...
Eu deveria querer alguma coisa.
Eu deveria querer ser alguém.
Eu não deveria ser vazia.
Eu não deveria simplesmente aceitar isso.
Eu não deveria desistir de mim mesma.
Mas eu já desisti.
Eu não desisti porque deu tudo errado.
Eu não desisti porque ninguém gosta de mim.
Eu não desisti porque é difícil demais.
Eu desisti porque eu não valho o esforço.
Eu não acho que valho. Eu não acho que valha pra alguém. Eu não posso oferecer nada a ninguém. Porque eu sou nada.
"Você é o acúmulo das suas experiências."
Vou fazer psicologia e virar conselheira infantil.
Uma vez.
Uns amigos da família estavam brigando. Por motivos de falta de conversa. Porque nenhum dos dois parava pra entender completamente o lado do outro.
Eu vi aquilo.
E eu expliquei pra eles.
Meu pai ficou adimirado com a minha capacidade de entender um sofrimento de duas pessoas completamente alheias a mim e que, até certo ponto, vivem suas vidas separadamente e longe de mim. Ele ficou surpreso com minha capacidade de entender o sentimento deles.
O sentimento.
Depois ele ficou orgulhoso com minha capacidade de observação.
"De onde você tira esse entendimento?"
De tudo que eu já sofri. Dos canalhas que eu enfrentei. Das suas brigas. Da minha vida.
Minha vida. Que eu sempre tive todo o trabalho de esconder. Porque eu fui ensinada a não ser fraca.
Mas eu nunca fui forte.
Mas eu nunca falei que era fraca.
Eu engoli o nó da garganta. Respirei fundo. Chorei no banho. Sofri de cara no travesseiro. Sempre pensei sozinha. Nunca compartilhei com ninguém. Me fechei. Não senti mais nada. Morri.
Eu morri.
Eu cheguei a não sentir mais nada.
Eu reprimi todos os meus sentimentos e lembranças.
Todos.
Os ruins. Os tristes.
Os bons. Os felizes.
Minha sala de controle ficou vazia. Minhas ilhas apagaram e desmoronaram.
Eu nunca fui forte.
Eu sempre fiquei calada.
Eu sou vazia.
Eu desisto.
Hoje a minha mãe ficou bêbada. De novo.
As pessoas que disseram "conte comigo sempre" da outra vez que ela quase bateu o carro três vezes comigo e minha irmã dentro depois de passar a tarde bebendo. Revoltada. Disseram daquela vez "todo mundo bebe".
Eu perdi a confiança na pessoa naquele momento? Sim.
Hoje a minha mãe fez meu pai ficar daquele jeito.
Ela vive com ele há mais tempo que eu. Ela conhece ele. Ela sabe.
Ela irritou ele. Ele perdeu completamente a paciência.
Eles bateram na Erica.
Não foi uma chinelada ou uma sintada. Um esporro, uns tapas.
Eles jogaram coisas nela. Emprensaram ela na parede. Enforcaram ela.
Ela saiu daqui arranhada e cortada. Toda vermelha.
Não importa quem está certo.
Não importa.
Eu não quero.
Não quero viver assim.
Não quero ver isso.
Não quero. Não quero. Não quero. Não quero. Não quero. Não quero. Não quero. Não quero. Não quero. Não quero. Não quero. Não quero. Não quero.
Eu não quero ver meu pai mandando minha irmã mais nova embora de casa.
Não quero ouvir minha irmã dizer que nunca mais vai olhar na cara deles.
Não quero ver ela chorar daquele jeito. Toda machucada. Como se fosse cachorro.
Não quero ver meus pais fazendo as mesmas coisas que meus tios fizeram com meus primos.
Hoje, uma sobrevive com a avô que só não odeia abertamente ela, outro está fora da escola há anos e é usuário de drogas e a mais nova só Deus sabe o que faz. Eles foram todos abandonados. Jogados pra fora de casa. E hoje eu vi meu pai fazer a mesma coisa com a minha irmã.
No final, não importa tudo que ela já fez pra mim.
É uma criança. Que não tem nada. Não tem pra onde ir. De dezessete anos.
Hoje eu chorei por quem eu sou.
Eu chorei pela minha irmã.
Eu chorei pela desilusão da minha mãe.
Eu chorei por desgosto do meu pai.
Eu chorei.
Eu tenho chorado muito. Eu chorei com a Adriana. Eu chorei com o Hugo. Eu chorei hoje como eu nunca chorei na minha vida.
Eu não gosto de ser quem eu sou.
Eu preciso de ajuda.
Eu não quero viver assim.
Eu não quero ser assim.
Eu não quero isso.